Reflexão sobre o 35 º Aniversário

Em 1979 o Papa João Paulo II nomeou São Francisco de Assis “padroeiro celestial daqueles que promovem a ecologia”. No 35º aniversario deste importante evento, nós, membros da Comissão Inter Franciscana da JPIC Romanos VI, enviamos esta reflexão a todos os irmãos e irmãs franciscanos/as de todo mundo. Esperamos que esta reflexão nos ajude a compreender melhor o que significa chamar a São Francisco de padroeiro da ecologia. Mas também, como seguidores de São Francisco, queremos explorar a responsabilidade que herdamos dele, que é o cuidado da criação como seus administradores. Também queremos partilhar com vocês alguns exemplos de franciscanos que se esforçam para vivenciar as implicações que esse acontecimento implica no contexto do mundo atual.

Um especial agradecimento vai para Keith Warner OFM, pelo artigo “Retrieving Saint Francis: Tradition and Inovation for our Ecological Vocation” (in Tobias Wright, ed., ed. 2011, Gree Discipleship: Catholic for our Ecological Vocation” (in Tobias Wright, ed., 2011, Green Discipleship: Catholic Theological Ethics and the Environment, Winona, Minnesota: Anselm Academic, pp. 114-127, http://webpages.scu.edu/ftp/kwarner/Fran-WarnerRetrieving.pdf), que tem sido de muita utilidade na preparação desta reflexão e que facilitou muito essa tarefa.

Francisco e a Ecologia.

Nosso fundador Francisco é considerado por muitos como exemplo excepcional do cuidado cristão da criação. Em tempos de crise ecológica, cientistas, líderes religiosos de outras confissões, estudiosos, crentes comuns e também não crentes, tem citado Francisco como seu inspirador. Porque Francisco tem tanta atração?

Em primeiro lugar, podemos indicar o amor apaixonado e sensorial de Francisco por toda a criação, vista como uma obra de Deus. Seu profundo apreço pela beleza e bondade da Criação o enchia de amor e agradecimento ainda mais profundo por Deus, fonte de tal abundância de bênçãos e plenitude.

Em segundo lugar, Francisco experimentou a presença de Deus na Criação. Francisco intuiu que o natural indica participar do sobrenatural. Sentiu que Deus se fez carne em Jesus Cristo e continua sendo e sempre estará encarnado no mundo. Em outras palavras, a visão da Criação de Francisco é Sacramental e Encarnada. Francisco nos oferece, portanto, uma afirmação alternativa da Criação, aquela que enfatiza na “mancha do pecado original”. Lembra-nos a bondade duradora e intrínseca da criação. Tanto como um fluxo de saída como o lar generativo de Deus. Este conhecimento de Francisco fez eco em João Paulo II na sua Encíclica O Evangelho da Vida (#83), na qual louva “um olhar contemplativo” de “quem não pretende apoderar-se da realidade, mas que acolhe como um Dom, descobrindo em todas as coisas o reflexo do criador e em cada pessoa a sua imagem viva.

É o cântico das criaturas a obra que melhor descreve a expressão de Francisco na sua relação com a Criação. Talvez a característica mais distintiva seja o contato que tem com os elementos da criação chamando-os de “irmão” ou “irmã”, revelando a profunda conexão que Francisco sentiu com o mundo criado. Deleitava-se com o sol, contemplava as estrelas, dançava com o ar, dialogava com o fogo, provou das maravilhas da água e acariciou a terra. O cântico é uma celebração do amor de Deus que se manifesta em toda a criação e ao mesmo tempo espelha os louvores da criação. Isto dá a conhecer o reconhecimento de Francisco com a criação e como uma expressão de amor generoso de Deus. Todas as coisas criadas são sinal e revelação (sacramento) do Criador, que deixa uma marca divina em toda parte. Como tal, a criação tem um valor intrínseco, não pelo seu valor material ou instrumental para os seres humanos, mas pelo fato de ter sido criada por Deus. Esta é a verdadeira sabedoria ecológica. Além disso, o Cântico não pode ser entendido separado do amor de Francisco por Jesus Cristo e a sua devoção pela Encarnação e a paixão. A humildade de Deus que o levou a entrar na Criação tem enobrecido infinitamente toda criação.

Em terceiro lugar, Francisco modelou um caminho para ação contemplativa. Sua devoção por partilhar a dor dos marginalizados, como por exemplo, com o leproso, o levava a agir com compaixão. Ele intermediava e encarnava o amor permanente de Deus para com Cristo ressuscitado sempre presente, ainda escondido nos desprezados e marginalizados. O compromisso de Francisco em viver a Boa Nova de Jesus Cristo, unido a seu apaixonado amor pela criação, deu origem a uma convincente consciência religiosa e ecológica que o tem vinculado a justiça social com a justiça ecológica. Francisco não só se esforçou pelas relações justas entre os seres humanos, mas também pelas relações justas com as demais criaturas e com a própria terra (inclusive até o ponto de “obedecer…. a cada criatura e a cada animal selvagem” (Saudação às virtudes, 14). A visão e a vida de Francisco continuam sendo testemunhas perenes de uma sabedoria ecológica que os seres humanos, individual e coletivamente, podem viver uma vida boa em relação fraterna entre si e com a terra. Se entende que seu testemunho espiritual e ecológico pode unir a todas as pessoas de boa vontade, para que juntos possam participar em atividades mais amplas para criar uma sociedade (dando assim respostas ao “grito da terra”) mais sustentável.

Recentes respostas católicas à ecologia.

A preocupação dos católicos pelo ambiente tem sido em consolidar a mensagem de João Paulo II para a Jornada Mundial da Paz, em 1990. Tão grande foi o impacto deste documento que colocou fim ao debate sobre a questão de se os católicos deveriam estar preocupados pelo meio ambiente, colocando a questão não sobre o ‘se’, mas sobre o ‘como’ os católicos devem expressar seu cuidado pela Criação. Enquanto a maioria dos ambientalistas mais convencionais aponte o crescimento industrial desenfreado e as decisões erradas da política pública como causa de nossas crises ecológicas, João Paulo II desafiou a todos os povos e reconhecer uma causa mais profunda destes males: o pecado, o egoísmo e a falta de respeito pela vida. Defendeu que muitas de nossas crises ecológicas se originam a partir de nossa compreensão desordenada do que significa sermos seres humanos em relação com Deus, com nossos semelhantes e com a criação.

João Paulo II desafiou a uma maior abertura para os valores do evangelho como um meio para tomar decisões ecologicamente sensatas. Também descreveu os deveres éticos dos indivíduos e das instituições em todos os níveis: para que as nações do mundo cooperem internacionalmente na gestão dos bens da terra; a cada nação, cuidar de seus próprios cidadãos e para cada individuo, de levar um caminho de formação na responsabilidade ecológica para consigo mesmos, para os outros e para a terra. Por último, lembrou aos católicos “a obrigação de cuidar de toda a criação”, que expressa “a esperança de que a inspiração de São Francisco nos ajude a conservar sempre vivo o sentido de “fraternidade” com todas as coisas, que Deus onipotente tem criado”. Nos últimos anos da sua vida, João Paulo II vinculou de maneira mais explícita a preocupação ecológica com os princípios da Doutrina Social da Igreja, afirmando que a prosperidade humana era de vital importância tal como o florescimento biológico e físico da criação. O “grito da terra” não pode estar separado do “grito dos pobres”. Sua contínua afirmação da importância do princípio de “solidariedade” com o reconhecimento iniludível da interdependência humana provou a compatibilidade tanto com a visão de Francisco como com aquela de uma consciência ecológica mais ampla. A atenção à ecologia humana tem sido um dos temas centrais do ensino de Bento XVI. Ele escreveu: “A igreja tem uma responsabilidade a respeito da criação e deve fazer valer esta responsabilidade em esfera pública. Ao fazê-lo, não só deve defender a terra, mas também a água, o ar, como dons da criação que pertencem a todos. Deve proteger, sobretudo, ao homem contra a destruição de si mesmo” (Caritas in Veritate n. 51).

Também destacou que “além da ecologia da natureza há uma ecologia que podemos chamar ‘humana’ e que sua vez requer que uma ‘ecologia social’. Isto comporta que, se a humanidade tem verdadeiro interesse pela paz, deve ter sempre presente a inter-relação entre a ecologia natural e o respeito pela natureza e a ecologia humana. A experiência demonstra que toda atitude desrespeitosa com o meio ambiente pressupõe a convivência humana e vice-versa. Cada vez se vê mais claramente o elo inseparável entre a paz com a criação e a paz  entre os homens “(Mensagem pela Jornada Mundial da Paz, 2007, n. 8). A preocupação dos católicos pelo cuidado da Criação tem continuado com o Papa Francisco, que reforçou que “não é só algo que Deus falou no amanhecer da história”, mas algo que Deus “tem confiado a cada um de nós como parte de seu plano”. O Papa Francisco também afirmou que encontra em seu homônimo uma constante inspiração ecológica: “Me ajuda a pensar, no nome de Francisco, que nos ensina um profundo respeito pela criação e a necessidade de proteção do meio ambiente como lugar a ser utilizado para o bem comum, mas que frequentemente é explorado em detrimento dos demais”. O Papa Francisco, como também seus antecessores, João Paulo II e Bento XVI, detectam claramente o fracasso moral no coração da crise ambiental, e nos adverte que se não se corrige essa cegueira moral teremos que pagar um custo muito alto: “Sempre que somos incapazes de cuidar da Criação, de nossos irmãos e de nossas irmãs, abrimos um caminho para a destruição e os nossos corações se endurecerão”.

Ecologia e Recuperação das Tradições Religiosas.

A maioria dos ensinamentos ambientais nas principais religiões do mundo se plasmou muito antes que os seres humanos tivessem a capacidade de causar os problemas ambientais de hoje. Em outras palavras, antes da ética ambiental moderna. Por outra parte, é fundamental reconhecer que entre os recursos éticos que as religiões conservam através das suas tradições, algumas são problemáticas, se examinadas a partir de uma perspectiva  ambiental, tais como a crença da superioridade dos ser humano em relação às outras criaturas, ou a suposta necessidade de rechaçar o mundo como algo inferior ou como um impedimento da comunhão com o divino. Isto indica que as tradições não são tesouros estacionários que devem ser defendidos, mas memórias e valores vivos e modos de ser que se transmitem de geração em geração….

Reapresentar a tradição se faz torna particularmente difícil a colocamos diante dos novos problemas. De modo especial, requer-se múltiplos passos para a questão do “recuperar” a tradição para a ética ambiental religiosa contemporânea.

  • Dos muitos elementos em uma tradição religiosa que abarca milênios, quais deveriam ser aqueles escolhidos para a ‘recuperação’? Tal processo requer discrição, tendo em vista que alguns elementos de uma tradição devem ser deixados no passado e outros poderiam ser úteis para inspirar a nossa ação na atualidade.
  • À luz da nossa crise ambiental, como deveríamos reinterpretar estes elementos, explicando seu significado com outras palavras em uma era de crise ecológica? Francisco amava a criação, mas não era ambientalista. Por isso, o Papa João Paulo II reinterpretou a vida de Francisco como a de uma pessoa medieval que serve de modelo para ajudar-nos a promover uma maior consciência ecológica ainda nos dias de hoje.
  • De modo mais geral, como esses processos podem renovar a identidade religiosa? Isso requer pensar criticamente sobre os valores que queremos que nos animem hoje em dia e identificar exemplos de nosso passado que nos ajudem em nossa trajetória para o futuro. Mas também precisa de compromisso com novas idéias, como a ciência. Hoje o conhecimento ecológico é um componente essencial de toda a ética ambiental e se deve identificar exemplos de nosso passado para ajudar-nos em nossa trajetória. Portanto, a renovação é necessariamente inovadora, pois supõe sintetizar o passado com o conhecimento presente para criar novas soluções para os nossos problemas.

O entrelaçamento das respostas a estas perguntas toma a forma de uma vocação porque volta a nossa atenção às necessidades do mundo. Esses problemas não devem ser abordados isoladamente pelas pessoas ou por ações individuais, mas por uma revisão coletiva da humanidade. Francisco dá testemunho de que a tradição católica e cristã pode contribuir para uma visão renovada da humanidade em relação com a natureza, mas também que cada tradição religiosa deve empreender esforços ativos de recuperação para dar sua própria contribuição e afrontar nossa crise ambiental atual. Mas quando tudo já foi dito, agora é necessário agir e fazer!! A resposta autêntica a essas perguntas não consiste somente em dados ou em manifestar boas intenções, mas na prática de viver cada um sua própria vida espiritual como um compromisso de integridade ecológica.

O Papa João Paulo II solicitou a toda a humanidade que realizasse sua “vocação ecológica”, cuidando da terra. Com tal iniciativa, o Papa fundiu um termo clássico da espiritualidade católica (vocação), com algo completamente novo (ecologia). Assim, vinculando a tradição com a inovação, ele nos convida a integrar os recursos da sabedoria de nossa tradição católica com as ferramentas científicas contemporâneas para a compreensão das conseqüências ecológicas de nosso tratamento insensato e irresponsável da terra. O exemplo de Francisco, tomado da tradição católica, quer inspirar-nos a responder ao clamor da terra com amor, compaixão e generosidade. Não devemos tratar de imitar um homem da idade média em nosso contexto moderno, tão diferente do tempo de Francisco, mas podemos olhar seu exemplo quando formulamos nossas respostas vocacionais às crises ambientais de nosso tempo.

Uma resposta vocacional contemporânea pode atingir ao exemplo da consciência ecológica de Francisco, embora tenhamos a necessidade de desenvolver uma nova visão moral, operando uma síntese que feche sabiamente com a inspiração religiosa e a melhor informação científica. Assim, é como podemos “recuperar” e transmitiremos com generosidade nossa tradição em uma era de crise ecológica.

Alguns exemplos de iniciativas ecológicas Franciscanas.

Francisco era um homem cheio de esperança. Ele nos inspira a ter uma esperança realista baseada na convicção de que as pessoas motivadas pelo Espírito de Deus responderão em número suficiente para começar a recuperação do planeta. A maior esperança de mudança não é um desastre ambiental, mas a mensagens do Evangelho que afirmam que são alternativas para a cegueira, a avareza e a competitividade que provocam tantos desastres.

Concluímos esta reflexão com algumas considerações práticas que podem ser de alento em nosso compromisso, bem como com alguns exemplos concretos de como nós franciscanos, que hoje procuramos maneiras de traduzir a consciência ecológica de nosso fundador, em ações que abordam a crise ecológica na qual nos encontramos e enfrentamos. Possa servir de inspiração para toda a Família Franciscana bem como para além desta!!!

Considerações práticas.

O esforço para enfrentar a crise ambiental deve basear-se em uma sabedoria prática que possa convencer as pessoas para a necessidade de atuar agora e proporcionar sugestões práticas e princípios para o trabalho. As três considerações básicas e práticas que devem formar parte de nossa visão franciscana são:

  • Realidade dos limites: À luz das atuais crises do meio ambiente e da crescente consciência dos limites da terra, como pode nos guiar o amor de Francisco pela Dama Pobreza? Uma “conversão ecológica” autêntica não pode ignorar a evidente desigualdade entre o norte e o sul ou a destruição do habitat local que priva parte da criação das condições essenciais de vida e do espaço. É necessária uma dupla resposta: um estilo de vida mais frugal e uma aplicação de uma legislação nacional e internacional que proteja a vida em todas suas formas.
  • Sociedades Sustentáveis: dado que a vida fraterna era essencial para Francisco, é provável que hoje ele tivesse a favor da idéia de “uma comunidade de comunidades”. Nossas sociedades de hoje necessitam ser mais descentralizadas (uma tendência contrária à crescente economia cada vez mais globalizada). É necessário focalizar-se em bio-regiões: potencializar as comunidades locais a assumir a responsabilidade de prover as suas próprias necessidades básicas. Isto se traduz na criação de comunidades que sejam capazes do auto-sustento e menos dependente dos bens (principalmente alimentos), e serviços (energia) que chegam do estrangeiro. Isto pode conduzir a adoção de políticas, tais como suprimir as restrições ao comércio, o aumento das tarifas sobre mercadorias importadas e fomentar a agricultura local.
  • Liturgia: como fonte e cume de toda a vida cristã (LG 11) e como único contato que a maioria dos católicos praticantes têm com a Igreja, a Eucaristia dominical é um momento privilegiado para fazê-los cristãos conscientes de que a justiça ecológica é um “sinal dos tempos” e uma questão de vida ou morte.

Exemplos concretos de respostas Franciscanas:

Há vários anos a Família Franciscana em todo o mundo tem buscado fortalecer e tornar cada vez mais concreto seu compromisso com a ecologia e a justiça ambiental. Os onze exemplos que seguem são uma mostra do que se está realizando:

  1. Participação na Conferência das Nações Unidas Rio + 20. Em junho de 2012, sessenta franciscanos, representando todas as partes da Família, estiveram no Rio de Janeiro, Brasil, assistindo a Conferência Ambiental Rio + 20, organizada pelas Nações Unidas. Um grupo dirigido por Franciscans International (a ONG franciscana das Nações Unidas), participou no Congresso Oficial. A maior parte da delegação Franciscana participou na Cúpula dos Povos, um evento paralelo que abordou os mesmos temas que o Congresso Oficial, mas que estava aberto a toda a sociedade civil. Os delegados franciscanos assistiram a muitos programas oferecidos no Congresso e na Cúpula e procuraram contatos entre aqueles assistentes que tem valores e inquietudes semelhantes aos nossos. Durante os últimos dias no Rio, os delegados se reuniram para elaborar estratégias para as futuras ações comuns. Como resultado aceitaram três propostas que atualmente já estão colocadas em prática:
    • Reconhecer o impacto que nosso estilo de vida tem sobre o meio ambiente e procurar modos de implementar as mudanças necessárias.
    • Abordar o tema da indústria mineira e seu impacto no meio ambiente. Este tema tem sido proposto pelos franciscanos em todo o mundo e requer colaborar com os promotores do JPIC em Roma para preparar e administrar um estudo sobre os impactos da indústria mineira, seguindo as ações para abordar os problemas descobertos.
    • Participar da Campanha “Dizer Não à Economia Verde”, que trabalha para expor as táticas de companhias e projetos que pretendem promover uma economia verde.

(A relação final relativa à participação dos franciscanos no Rio de Janeiro pode encontrar-se no apêndice desta reflexão; nela são encontradas algumas estratégias úteis e práticas para se trabalhar neste campo).

  1. Seguindo a Rio + 20: Para que as políticas do desenvolvimento global sejam eficazes, deve-se ter em consideração as necessidades e interesses específicos das populações marginalizadas e vulneráveis, em particular daquelas que vivem na pobreza e que estão presentes sejam nos países desenvolvidos do mundo como naqueles em desenvolvimento. Enquanto isso, o desenvolvimento sustentável é geralmente visto como justo e responsável, sendo um conceito que dá lugar a um debate que é mais complexo do que pode parecer à primeira vista. Analisando em modo holístico as políticas de desenvolvimento, nascem espontaneamente as seguintes perguntas: Quais são as realidades concretas que estão por detrás de um suposto desenvolvimento? Quem realmente goza dos benefícios dos projetos do desenvolvimento? Quais são os custos reais para o ambiente e para as comunidades locais? Sem perder-se em termos especializados, Franciscans International publicou um pequeno folder que ajuda a entender o que significa o desenvolvimento sustentável. Nesse folder estão as chaves para decifrar os debates atuais (incluindo a Conferência da Rio + 20 e o seu desenrolar) que conduzirá a importantes decisões a nível global e, consequentemente, a mudanças práticas nas Comunidades locais. Ver o texto do novo manual da FI na pós Rio + 20 e os temas ambientais chaves em:

http://franciscansinternational.org/fileadmin/docs/Environment/FI_20booklet_Development-Sustainable_20for_20whom_Nov_202013_final-EN.pdf

  1. Direito da água: Franciscans International está comprometida em enfrentar o tema do direito da água para todos e de maneira particular para aqueles que são marginalizados. Este trabalho traz várias atividades, das quais uma delas foi publicada e trata-se de um guia prático do direito à água. Ver o texto completo em:

http://franciscansinternational.org/fileadmin/docs/Water_manual/FI_WL_The_Right_to_Water_and_Sanitation_-_a_practical__guide.pdf

Outra atividade é uma série de oficinas que foram celebradas em Nairobi e Genebra, seguida de uma oficina em Vanderbijlk, África do Sul, no dia 7 de novembro de 2013. Nesta oficina participaram franciscanos provenientes da Etiópia, Quênia, Uganda, Tanzânia, Malavi, Zimbábue, Zâmbia e África do Sul. O grupo discutiu temáticas-chave tais como a responsabilidade dos Governos para a proteção do direito à água, com ênfase nos mais vulneráveis, como as pessoas que vivem em pobreza, sejam nas regiões rurais como nas urbanas. Durante a oficina, os representantes da Departamento Católico de Coligação parlamentar e do JPIC da Conferência dos Bispos do África do Sul falaram de seu trabalho de promoção com os políticos. Um delegado de “A iniciativa da Paz Damietta” partilhou seu ponto de vista sobre a relação existente entre a paz e o acesso a água. O grupo da FI de Genebra esteve presente para reforçar o uso dos mecanismos pertinentes das Nações Unidas no que se refere aos direitos humanos na ótica de contribuir e realizar o direito à água. O documento final produzido pela oficina é a Declaração Vaal sobre a água e os serviços higiênicos, que estabelece o enfoque correto aos temas, dando uma especial atenção às necessidades dos mais vulneráveis. Sem deixar de reconhecer as conquistas de alguns governos africanos para garantir este direito fundamental, a declaração insta a uma maior participação das comunidades locais na prestação de seus próprios serviços de água e a proteção da comercialização destes serviços. A declaração contém também um convite às comunidades religiosas para que se aproximem e possam dar suporte àqueles que estão privados de seus direitos (ver o texto completo da declaração em:

http://franciscansinternational.org/fileadmin/docs/Water_manual_/The_20Vaal_20Water_20and_20Sanitation_20Declaration-2.pdf ).

  1. Sunshine House na Indonésia: esta iniciativa assumida pelo irmão Samuel Onton Sidin, OFMCap. (ganhador do prêmio Kalpataru, máximo reconhecimento ambiental na Indonésia) está promovendo programas de reflorestamento e conservação de alto perfil, especialmente na Província de Kabu Raya, onde se tem plantado árvores de altura e se está introduzido na região atividades definidas como “GO Green”. Abriu-se a Casa Sunshine, um centro de oração para os católicos do lugar, onde se estão promovendo iniciativas para proteger o meio ambiente, oferecendo, ao mesmo tempo, celebrações de espiritualidade franciscana para os cristãos. Em 2000 se reflorestou uma área de 90 hectares do monte Tunggal, nos Montes Benuah. A área tinha sido devastada por um grande incêndio florestal de origem suspeita. Na operação se reflorestaram árvores autóctones de rara espécie, em perigo de extinção, e se criou uma zona de alimentação para aves.
  1. Franciscan Earth Corps (USA): que foi lançada em setembro de 2013 pela Rede de Ação Franciscana (FAN). Essa iniciativa está constituída por uma rede de adultos jovens (18-35 anos) que estão comprometidos em projetos de cuidar da criação de Deus e trabalhar pela justiça. O programa integra a ação com a contemplação. Proporciona uma formação espiritual na tradição franciscana (com ênfase na justiça social e ambiental), abre projetos locais de vida e organiza a base para trabalhar contra as mudanças climáticas. Este programa está sendo adaptado para ser usado em paróquias, colégios e Ordens Religiosas.
  1. Terceiro Encontro Continental de JPIC das Américas, Quito, Equador, em novembro de 2011. Setenta e nove Franciscanos (irmãos, irmãs e seculares) reuniram-se para explorar o tema das experiências de inserção em “Justiça Ambiental e os Desafios da Amazonas. Foram partilhadas as experiências de inserção na Amazônia. Durante o encontro se desenvolveram também conferências científicas e teológicas. A assembléia definiu cinco prioridades necessárias para responder aos desafios da Amazônia:
  • Encarnação, através da inserção, que leva à conversão pessoal e fraterna.
  • Espiritualidade profética que seja libertadora e que fomente a justiça ambiental.
  • Presença e testemunho fraterno na missão.
  • Colaboração e trabalho em rede.
  • Formação.

A partir destas prioridades se desenvolvem recomendações específicas para a missão na Amazônia.

  1. A JUFRA da Bósnia organizou uma “Jornada pela Ecologia”, um programa anual que se realiza em um dia e que está para educar os jovens franciscanos sobre a importância de manter limpo nosso entorno. São Francisco é apresentado como uma pessoa que admira e se preocupa com todo o criado. Essa atividade se realiza cada ano em uma cidade diferente da região, e os membros da JUFRA limpam a cidade e plantam novas árvores. Na Croácia, os franciscanos tiveram uma grande influência na decisão tomada pela Companhia Adriá de não construir um oleoduto que atravessaria toda a Croácia. A JUFRA e a OFS, unidos com a organização “Green Ones” conseguiram frear essa atividade, embora algumas companhias e políticos tenham tentado pressionar para que esse projeto se realizasse.
  1. Desde 2010, graças à iniciativa de Jean Bosco Nkodia, OFS e a uma equipe de biologia do Reseau dês Femmes Africaines Pour Le developpement durável (REFADD), a fraternidade regional da OFS de Roma, na República Democrática do Congo, foi desenvolvido um projeto que promove tanto o cuidado do ambiente como a luta contra a pobreza. O projeto está dirigido a proteger o Parque Marino das Mangrovie, que se encontra no litoral atlântico da RDC, no rio Congo. O projeto também trabalhava para proteger aos mananciais da caça indiscriminada por parte da população local. Esses objetivos são alcançados mediante a criação de uma série de lagoas que oferecem peixes e suficiente madeira, eliminando assim a necessidade do corte das Mangrovie e a matança dos lamantini.
  1. A paróquia da igreja Santa Teresa, em Arakonam, se encontra no sul da Índia, perto de Chennai. A cidade conta com 200.000 habitantes dos quais só 10.000 são cristãos. Tem-se criado uma colaboração com os grupos de seculares e tem sido uma experiência gratificante. Neste tempo no qual todos experimentaram os efeitos do aquecimento global e as mudanças climáticas, os membros da paróquia estão unidos para cuidar da terra, utilizando alguns modelos inovadores para responder à crise ecológica. Tem sido individualizado seis modelos que são chamados “Modelos de Espiritualidade doméstica”, que podem ser colocados em prática com facilidade pelos membros seja das comunidades religiosas como da comunidade secular, que desenvolvem as seguintes propostas: comer do alimento local, comprar produtos locais, casar-se na localidade, rezar pelas questões locais, morar na localidade e seguir uma dieta vegetariana. Estes modelos se aplicaram com fidelidade e responsabilidade por parte dos membros da comunidade religiosa e da paróquia e já se está colhendo os primeiros frutos. Tal exemplo mostra com êxito o que pode fazer uma comunidade religiosa quando se une a uma comunidade secular com o objetivo de criar melhores condições de vida para as gerações futuras.
  1. Franciscans International tem um trabalho de advocacia na ONU, em colaboração com os franciscanos que estão no mundo, para fazer frente a casos de injustiça ambiental ou para melhorar as políticas nacionais para proteger as pessoas e o planeta. FI tem sido muito ativa no processo de continuidade da Rio + 20 que está acontecendo na ONU. Um dos mais importantes resultados da Rio + 20 foi que 193 países lembraram de colocar em marcha um processo intergovernamental para definir um novo grupo de “objetivos de desenvolvimento sustentável” global. A definição destes objetivos está ainda na fase de debate e se espera que possam ser adotados em 2015 e, se possível, que tenham um impacto na definição das políticas meio-ambientais, sociais e econômicas dos próximos anos. Através desse ministério conjunto na ONU, a Família Franciscana Global tem uma importante voz para solicitar o cuidado da criação, a promoção do bem comum e a solidariedade com as comunidades que foram afetadas pelas políticas injustas e pelos abusos ambientais. FI se encontra com freqüência com representantes governamentais diante do Conselho dos Direitos Humanos de Genebra e na Assembléia Geral para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, em Nova York. Todos os Franciscanos podem unir-se aos esforços da FI e podem pedir a seus representantes que projetem uma agenda global baseada nos valores franciscanos: uma agenda que respeite a dignidade de cada pessoa, que promova uma distribuição equitativa dos recursos, que proteja e que cuide do meio ambiente.
  1. A fraternidade Nacional do Uruguai, após uma crise em Montevidéu, em 2013, quando os moradores ficaram chocados ao ver sair das torneiras de suas casas água marrom com sabor e cheiro horrível, houve uma ação de mútuo compromentimento entre a Franciscans International e as outras organizações nacionais para a defesa da irmã água. A crise foi causada pela contaminação da bacia do rio Santa Lucia, principal fonte de água para 50% dos uruguaios. O incidente colocou em evidência os problemas sistêmicos na gestão do governo no que tange os recursos da água doce e nos serviços de distribuição da água potável. A Fraternidade Nacional da OFS se associou com a FI para estudar o problema e para definir uma série de recomendações para os políticos, a fim de que se possa proteger melhor os recursos de água doce e que seu uso seja anteposto na saúde pública sobre o uso das indústrias. Os franciscanos se reuniram em diferentes grupos de organizações da sociedade civil. No mês de junho de 2013 a coalizão franciscana apresentou um informe detalhado da ONU e se apresentaram as recomendações a diplomáticos estrangeiros em Montevidéu. Através da FI foi possível ser enviado a Genebra um representante da Fraternidade que defendeu essas recomendações na fase prévia da próxima revisão periódica dos Direitos Humanos do Uruguai.

Apêndice:

            Documento final da Delegação Franciscana na Conferência Rio + 20.

Cinqüenta e seis membros da Delegação Franciscana na Conferência de Rio + 20 reuniram-se no Brasil do dia 15 a 23 de junho de 2012 na Conferência da Rio + 20 das Nações Unidas e paralelamente na Cúpula dos Povos. Os participantes também organizaram encontros entre eles para preparar e apresentar propostas comuns à Família Franciscana e formas concretas para implementar as referidas propostas. Os participantes elaboraram o seguinte documento para ajudar a dar a conhecer as atividades da Rio + 20 e para animar a Família Franciscana a estar cada vez mais envolvida nas respostas às crises atuais que enfrentamos no mundo de hoje.

Na opinião de muitos, passamos por um momento de crise na história da terra. A crise social-ambiental e econômica requer uma avaliação da situação atual. Procuram-se modos eficazes para promover uma responsabilidade partilhada para o bem estar de toda a família humana, da grande família humana, das gerações futuras e do nosso planeta. Como seguidores de Francisco, estamos chamados a compreender plenamente o mundo no qual vivemos e  a acolher a vida em toda a plenitude da criação divina. A Família Franciscana, recentemente, decidiu colocar em discussão a questão da justiça ambiental. Como parte de nossa iniciativa comum, um grupo de aproximadamente sessenta franciscanos se reuniu no Rio de Janeiro na “Cúpula dos Povos” e na Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável (UNCSD RIO + 20). Nossa delegação esteve integrada por pessoas que participaram dos eventos oficiais das Nações Unidas, guiados pela equipe da Franciscana International (nossa ONG franciscana nas Nações Unidas) e por aqueles que participaram das atividades paralelas da “Cúpula dos povos”. Juntos estudamos e refletimos sobre alguns temas fundamentais, incluindo a sustentabilidade dos direitos humanos ambientais, a espiritualidade, a pobreza, os povos indígenas e a economia verde. Trabalhamos para partilhar nossos valores e a visão de um mundo melhor com as outras pessoas que se reuniram no Rio nos referidos encontros. Como Franciscanos, temos uma visão comum da pessoa humana, da sociedade e da natureza. Nossa herança nos permite partilhar o interesse a partir do olhar ético das relações saudáveis com toda a criação, com particular atenção aos marginalizados. Temos refletido nas diferentes exigências que caracterizam as individuais realidades de pertença; no percurso de nossas discussões emergiram os problemas de nível local que estão intimamente unidos a uma realidade global. Como consequência, decidimos, como membros da Família Franciscana Internacional, preparar uma série de propostas que poderíamos implementar juntos. Os grupos locais e regionais continuarão o trabalho em suas problemáticas específicas, mas os participantes escolheram e estão comprometidos nas seguintes propostas, que devem ser implementadas pela Família Franciscana Mundial:

  1. Promover a autenticidade do estilo de vida.
  2. Participar no projeto minério dos promotores da JPIC de Roma.
  3. Continuar na Campanha “Não” à economia verde, denunciando os problemas surgidos da economia verde e procurando paradigmas alternativos para a sociedade.

As três propostas deverão tratar de:

  • Preparar material (incluindo definições básicas) e oferecer informação e formação para nossos irmãos e irmãs e para aqueles com quem trabalhamos.
  • Criar uma série de pontos de discussão sobre o novo paradigma para a sociedade, a partir dos pontos de vista franciscano.
  • Aprofundar a consciência de nossa espiritualidade franciscana, que inclui um interesse pela criação. Preparar e partilhar orações, celebrações e, sobretudo, temas.
  • Trabalhar com peritos dos setores que se querem abordar.
  • Denunciar atos de violência perpetrados contra os mais desfavorecidos.
  • Criar e fortalecer os contatos dentro da Família Franciscana bem como com outras organizações e movimentos da sociedade civil.
  • Animar a Família Franciscana de todo o mundo para participar nas atividades de conscientização para políticas públicas.
  • Colaborar com os grupos já existentes. Esforçar-se por manter um trabalho a partir da base.

Por fim, os participantes confiaram o desenvolvimento das propostas concretas acima elencadas aos diferentes participantes/grupos, em particular: Frei Bernd Beernan OFMCap e a Família franciscana da Alemanha são responsáveis pelas propostas sobre a autenticidade do estilo de vida; Irmã Sheila Kinsey FCJM e o Frei Joe Rozanky OFM são responsáveis pelo projeto no setor do minério; Sinfrajupe, a organização JPIC da Família franciscana no Brasil, sobre a economia Verde.

Tradução: Frei Luis Méndez

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